terça-feira, 1 de agosto de 2017

A origem dos povos indígenas Xavante


A origem dos povos Xavante
(A'uwe Uptabi)



Antigamente, era tudo escuro, não tinha nuvem, nem sol, só tinha arvores. De repente, apareceu arco-íris. Os filhos das nuvens, dois irmãos chamados Butsé e Urebe, descem das nuvens pelo arco-íris a terra.

Então eles começaram a pensar em criar as mulheres. Em seguida, eles preparam dois pedaços da madeira Wamarĩ, igual aos brincos usados pelos homens Xavante. Butsé pintou as pontas da madeira de vermelho. Urebe pintou uma listra vermelha. Eles colocaram os pedaços de madeira no chão e cobriram com folhas de arvore.

No dia seguinte, o pauzinho se transformou em mulher. Butsé deu a mulher que ele criou para Urebe e Urebe deu a mulher para Butsé. Butsé se casou essa mulher chamada Tsinhotse’ewawe. Eles têm 5 filhos. Tsõrõpré, Tsõrõ’rada, Aptsi’ré, Tserebutuwẽ, Tsitó. Urebe se casa com a mulher chamada Petsi’õtõri’õ. Eles têm também 5 filhos. Wéré’é, Tsa’amrĩ, Tsitõmow, Wadahité, Tsipadzabé.

A partir daí começa a divisão entre os clãs. Butsé cria o clã Pö’redza’õno e Urebe cria o clã Öwaw.



   Históriador: Francisco Prõnhõpa.

Ass. Anhahö'a Tsereruremé Natal e Tseredzati Tsiruwewe Aléssio

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Após mortes Xavante exige pedágio na BR-070 em Mato Grosso

A comunidade indígena já perdeu oito integrantes vítimas de acidentes na rodovia que corta as terras localizadas na região de Sangradouro

 As lideranças indígenas da região de Sangradouro, entre Primavera do Leste e General Carneiro, a cerca de 300 km de Cuiabá (MT), reivindicam maior segurança ao longo da BR-070 e exigem a instalação de um pedágio entre Primavera e o município de Barra do Garças.

No mês de novembro a comunidade perdeu o Cacique Marino Tsimhone, 78 anos, e  o estudante Benedito Tserenhõrowe, 18 anos, vítimas de atropelamento. Ao todo, oito índios já morreram atropelados ao longo da rodovia, segundo os indígenas, pela imprudência dos motoristas que não respeitam as sinalizações.

Em um discurso embargado pela emoção e dor, o Xavante e professor Oswaldo Buruwé comunicou sobre a decisão tomada pelo povo indígena: “Não aceitamos outra proposta do homem branco. Queremos pedágio dentro da aldeia. De Primavera para Barra do Garças o dinheiro irá para o Governo; de Barra do Garças para Primavera o dinheiro irá para a  comunidade. Nós somos discriminados, marginalizados. Meu sobrinho morreu de graça. Eles tiraram os sonhos dele e da nossa família”.

A declaração foi feita durante reunião realizada dia 05 de dezembro na aldeia Sangradouro e na presença do superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Orlando Fanaia; do superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Arthur Nogueira; do representante do Ministério Público, Rafael Nogueira e do prefeito de Primavera do Leste, Érico Piana, além do senador Wellington Fagundes e do deputado federal Valtenir Pereira.

As vidas perdidas, segundo Buruwé, não voltam e que por isso a decisão entre os índios é unânime quanto à instalação do pedágio. E o pedido foi preciso: a construção deve ser feita em curto prazo. “Não daqui a 120 dias, dois anos, queremos que aconteça alguma coisa para a nossa sobrevivência. Já foram oito mortes. Matar índio virou o que? Virou como matar animais. A vida não tem preço, nem ouro se quer compra”, pontuou o Xavante.

Orlando Fanaia, superintendente do DNIT em Mato Grosso, diz que são 19 acessos usados pelos índios para transitar entre as aldeias e a BR-070. Alguns deles estão em curva, o que representa perigo para os usuários. “Vamos priorizar todos os acessos, que devem ser pavimentados na faixa de domínio da BR-070, que é de 35 metros”, disse ele. Entre os 19 acessos, três devem começar a ser pavimentados já no começo de 2017.

Além da pavimentação desses acessos, os indígenas querem a construção de pontos de ônibus, melhor sinalização e a construção de ciclovia ao longo da BR-070 até a área urbana de Primavera do Leste. “Esta reunião não é pra contar picuinhas, pra inventar, pra nos enganar convidamos para que os senhores estejam aqui para falar: podemos fazer, buscar um meio para dar as melhores condições de vida não da nossa, mas da futura geração. É pra construir e instalar o pedágio”, exigiu o professor às autoridades.

Morte do Cacique e do jovem Benedito

Um dia após os atropelamentos, o vereador e professor Bartolomeu Patirá explicou ao Circuito Mato Grosso que o jovem Benedito Tserenhõrowe estava voltando para a escola, em uma motocicleta, quando uma caminhonete bateu contra o veículo. O motorista fugiu do local sem prestar socorro e foi perseguido pelos índios.

O professor Oswaldo Buruwé contou que Benedito não tinha problemas com álcool nem drogas e que isso foi atestado no certificado de óbito. “Ele tinha acabado de deixar o pai na aldeia e estava indo estudar, aí passaram por cima dele. Não sobrou nada da motocicleta; ele quebrou a clavícula e não resistiu. Os motoristas querem que a gente morra”.
Já o Cacique foi atropelado propositalmente durante um protesto realizado pelos indígenas contra a morte do adolescente Benedito. Bartolomeu contou que um caminhão, modelo Scania, foi em direção ao cacique em alta velocidade e o atropelou. O cacique não resistiu aos ferimentos e faleceu.

Pela lei do povo Xavante é "olho por olho, dente por dente". “Para os Xavante é: se o cara morreu, tem que matar. Eu sou professor, morei na cidade e entendo como é a burocracia do homem branco e que pela nossa lei isso não pode acontecer dentro das nossas terras indígenas. Nós somos seres humanos”.

Ao final da reunião, ficou acordado entre os índios e as autoridades que o assunto será levado ao conhecimento dos ministérios da Justiça e de Transportes, assim como a Funai e Ibama.

Indígena morre em acidente na BR-158

Na tarde desta segunda-feira (12), um indígena de 35 anos (etnia não revelada), morreu ao se envolver em um acidente na BR-158, entre os municípios de Nova Xavantina e Água Boa. A vítima estava em uma motocicleta quando foi atingida por outro veículo e acabou sofrendo várias escoriações pelo corpo tendo uma perna decepada com a força do impacto. O outro condutor fugiu do local sem prestar socorro.

O Corpo de Bombeiros foi acionado e esteve no local para prestar os primeiros socorros, porém o indígena não resistiu aos ferimentos. Ao Circuito Mato Grosso, a PRF informou que até o momento não foi encontrado o outro condutor. A perícia Oficial de Identificação Técnica esteve no local e a Polícia Civil deu inicio às investigações.

 
NA Br-158, encontra-se uma reserva indígena Marãiwatsédé, dos Xavante, que não aceitam a instalação de um pedágio em suas terras. Recentemente uma reportagem divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo afirmava que para liberar o asfalto no trecho da BR-158 que corta a reserva indígena Marãiwatsédé, o governo de Mato Grosso decidiu propor o pagamento de uma taxa aos índios, a partir da instalação de um pedágio na rodovia.

Segundo a matéria, a concessionária assumiria a gestão da estrada, com o compromisso de repassar aos indígenas uma parte do valor arrecadado com o pedágio, que iria para um fundo administrado pelos próprios índios. Porém, em uma nota enviada pela comunidade através do Ministério Público Federal (MPE) os indígenas repudiavam as declarações de que os índios teriam autorizado a implantação do pedágio na rodovia, dentro da reserva.

Pela Lei Federal 6.001, de 1.973, não é permitido colocar pedágio dentro de reserva indígena. Tampouco há legislação que regule a criação de um fundo atrelado à cobrança de taxas para que veículos circulem pelas terras indígenas.

A dor de uma comunidade inteira

A morte é a única certeza do ser humano, em algum momento ela chega para todos. Mas sentir a perda é algo imensurável e não existem palavras que expressem o sentimento. Uma comunidade inteira sofreu a dor da perda de seus entes queridos, o povo Xavante chorou a morte de  ambos os mortos por atropelamento.

Emocionado, o Cacique maior, Alexandre Pseerppse, relatou ao Circuito Mato Grosso, um dia após as mortes a revolta da aldeia. “Nós não somos animais para as pessoas passarem por cima da gente. Não respeitam o índio. Passam por cima do índio e não prestam socorro”, desabafou.

A audiência solicitada pelos indígenas demonstrou às autoridades o sofrimento de uma comunidade inteira. “O branco sofre até o sétimo dia depois bebe cerveja, fica louco. Nós nascemos chorando e morremos chorando. Está é a nossa cultura e por isso mesmo a nossa decisão sobre o pedágio”, justificou o Xavante e Professor Oswaldo Buruwé que foi o porta voz dos povos indígenas.

Em um momento do discurso, Buruwé falou da relação índio e homem branco. “Muitos brancos falam que os índios são ruins. Nem todos. Nem todos os brancos são ruins, alguns são, porque houve esse assassinato do meu sobrinho que nunca saqueou caminhões. Por isso que eu falo: nem todo Xavante é rum, tem Xavante que são bons. Temos que usar as expressões com prudência”.

O dinheiro arrecadado com o pedágio seria para a sobrevivência das comunidades, segundo Buruwé. “Temos que ter o ganho de alguma coisa para sobreviver. Precisamos pagar hospitais, cirurgias. Quem faz cirurgia são os senhores, pois os senhores têm melhores condições de vida para poder cuidar da família. Como já estamos perdendo tudo, buscamos um meio para nossa sobrevivência e a sobrevivência futura”.

Polêmica entre Marãiwatsédé e Vice-governador

Uma reportagem divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo afirmava que para liberar o asfalto no trecho da BR-158 que corta a reserva indígena Marãiwatsédé, onde vivem cerca de mil índios Xavante, o governo de Mato Grosso decidiu propor o pagamento de uma taxa aos índios, a partir da instalação de um pedágio na rodovia. Porém, diferente dos Xavante da BR-070, os Marãiwatsédé não querem pedágio em suas terras.

 

Segundo a matéria, a concessionária assumiria a gestão da estrada, com o compromisso de repassar aos indígenas uma parte do valor arrecadado com o pedágio, que iria para um fundo administrado pelos próprios índios. A sugestão foi apresentada em uma reunião realizada com a presença de representantes do governo do Estado, lideranças indígenas, membros do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e da Fundação Nacional do Índio (Funai).
 
O defensor da proposta é o vice-governador e atual secretário de Meio Ambiente de Mato Grosso, Carlos Fávaro, conhecido na região pelos anos em que ficou à frente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado (Aprosoja). Segundo ele, os indígenas apoiaram a proposta.

Porém, em uma nota enviada pela comunidade através do Ministério Público Federal (MPE) os indígenas repudiavam as declarações de Fávaro, de que os índios teriam autorizado aimplantação do pedágio na rodovia 158.

Pela Lei Federal 6.001, de 1.973, não é permitido colocar pedágio dentro de reserva indígena. Tampouco há legislação que regule a criação de um fundo atrelado à cobrança de taxas para que veículos circulem pelas terras indígenas.

Em um trecho da nota, os indígenas confirmam que estiveram reunidos com Fávaro, mas que em nenhum “momento da reunião cogitou-se a instalação de pedágio no interior da Terra Indígena e que não concordam com a proposição insinuada pelo Vice-Governador”. As informações divulgadas pela imprensa teriam gerado indignação da comunidade.

“As lideranças indígenas informam que a comunidade tem autonomia para definir suas prioridades de desenvolvimento, não admitindo a negociação de seus direitos (art. 7º da Convenção 169, da OIT)”. Segundo eles, a comunidade iria se reunir para discutir estratégias para agilizar o início das obras no contorno leste da rodovia, de modo a suspender o trânsito de veículos no interior da Terra Indígena.

E enviaram um recado ao Governo do Estado de Mato Grosso. “Esclarecemos que a comunidade está atenta e não admitirá a manipulação de informações ou da própria comunidade indígena”. 
 
 

Líder Xavante faz depoimento contundente e emocionado ao pedir pedágio na BR-070 

 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Xavantes bloqueiam BR-070 em MT em protesto contra a morte de indígenas

30/11/2016 12h51 - Atualizado em 30/11/2016 15h03

Xavantes bloqueiam BR-070 em MT em protesto contra a morte de índios

 

ìndios da etnia Cavante interditaram totalmente um trecho da rodovia em MT (Foto: Luis Roberto Fileto/TVCA) 

 

Cerca de 100 índios da etnia Xavante voltaram a interditar um trecho da BR-070, na manhã desta quarta-feira (30), em protesto contra a morte de dois indígenas que foram atropelados na rodovia na semana passada. O G1 tentou, mas não conseguiu contato com o cacique Xavante Graciano Pronhõpa, presidente da Associação Auwêuptabi.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o bloqueio ocorre no km 240 da rodovia, em Primavera do leste, a 239 km de Cuiabá, e o congestionamento no local já chega a dois quilômetros de extensão.
A interdição total daquele trecho da rodovia teve início às 9h e a via ainda não tem previsão para ser liberada. Conforme a PRF, os manifestantes reivindicam uma reunião com autoridades para tratar das mortes do jovem Benedito Tserenhõrowe, de 20 anos, e de um cacique cujo nome não foi divulgado pelos indígenas.
Benedito morreu na quarta-feira (23), após ser atropelado por uma caminhonete, quando seguia de motocicleta pela rodovia. Já o cacique foi atropelado quando participava do início de um bloqueio contra a morte de Benedito, na quinta-feira (24).
De acordo com a PRF, o protesto está sendo feito de forma pacífica no local e está sendo monitorado por policiais rodoviários federais.
Bloqueio
Os xavantes já haviam bloqueado a rodovia na última sexta-feira (25), também em protesto pelas mortes. Na ocasião, o trecho permaneceu bloqueado por duas horas.
Após as mortes por atropelamento, os índios, que vivem na Aldeia Sangradouro, em Primavera do Leste, passaram a pedir a mudança de rota da BR-070, que atualmente passa dentro da terra indígena. Segundo o cacique Graciano Pronhõpa, são frequentes os acidentes na rodovia e, por isso, defende a mudança para que os motoristas não trafeguem dentro da terra indígena.
 

Cacique Sangradouro diz atacar Primavera do Leste 


 

sábado, 9 de julho de 2016

Indígenas acusam fazendeiros de morte de guarani-kaiowá no Mato Grosso do Sul

Outros cinco foram feridos, incluindo uma criança de 12 anos, em novo conflito por terras no Estado. Grupo entrou em fazenda e foi cercado por carros que começaram a disparar

Clodiode Aquileu Rodrigues de Souza, um guarani-kaiowá de 26 anos, foi a mais recente vítima fatal do conflito por terras que se acirrou nos últimos anos no interior do Mato Grosso do Sul. O agente de saúde indígena foi morto na tarde desta terça-feira, depois que um grupo de produtores rurais cercou uma fazenda que havia sido ocupada dois dias antes por indígenas que reivindicam a área. Outros cinco índios ficaram feridos, entre eles uma criança de 12 anos, todos atingidos por munições letais, de acordo com o hospital onde eles estão internados. O episódio ocorre menos de um ano depois da morte de Semião Fernandes Vilhalva, outro guarani-kaiowá de 24 anos, em circunstâncias parecidas na mesma região.
Os cerca de 300 índios haviam entrado na tarde de domingo na fazenda Yvu, em Caarapó, a 273 km da capital Campo Grande, em uma ação de "retomada", expressão usada pelos indigenistas para definir a ocupação de uma área que já pertenceu a seus ancestrais. Eles montaram barracas de lona e fizeram um acampamento nos arredores da sede da fazenda, que tem cerca de 490 hectares, metade deles dedicado ao plantio de soja e outra metade à pecuária. Na manhã de terça-feira, "mais de 200 camionetes e carros", segundo Elson Canteiro Gomes, liderança indígena local, chegaram na área e se dividiram em dois grupos, cercando os guarani-kaiowá, conta ele. "Fizeram um cerco e chegaram atirando. Muitos tinham arma de fogo e armas com bala de borracha", ressalta. Os índios reagiram atirando flechas e fugiram, se espalhando pela área. Nenhum produtor rural ficou ferido. 
Clodione, afirma Gomes, foi atingido por um primeiro tiro quando estava na área da Yvu e por um segundo tiro quando já estava na área da aldeia Te'yikue, que faz fronteira com a fazenda. Foi socorrido, mas morreu a caminho do hospital. Josiel Benites, de 12 anos, e Jesus de Souza, de 29 anos, foram feridos no abdômen. Vaudilho Garcia, de 26 anos, no tórax. Os três passaram por cirurgia. Lubésio Marques, de 43 anos, recebeu três tiros: um no ombro, um no tórax e outro no abdômen. E Norivaldo Mendes, de 28 anos, também foi atingido no tórax. Na tarde desta quarta, todos estavam estáveis e passavam bem, afirmou Genivaldo Dias da Silva, superintendente do Hospital da Vida, em Dourados, para onde todos foram transferidos ainda na tarde de terça-feira.

Silva afirma que tem "certeza absoluta" de que todos foram baleados por arma de fogo. "Andaram falando que eles foram atingidos por bala de borracha. Mas se bala de borracha faz o que fez com nossos pacientes, temos que conversar sobre balas de borracha", ironiza o superintendente do hospital. Segundo ele, os indígenas contaram que foram enganados para se aproximar dos carros. "A versão deles é que eles foram chamados para dar uma entrevista e quando chegaram ouviram uma saraivada de balas", conta. Procurada durante toda esta quarta-feira, a Polícia Federal não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre os detalhes do crime. O Ministério da Justiça também não explicou porque não havia segurança na área, já que a região estava em litígio havia mais de um dia. Em nota, disse apenas que deslocou a Força Nacional para reforçar a segurança, após pedido do Governo local.
A fazenda Yvu pertence a Silvana Amado Buainain, filha do produtor rural Sylvio Mendes Amado, que morreu em julho de 2014 aos 95 anos. Ele foi um dos fundadores da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul), uma das principais associações de pecuaristas do país, que em nota creditou as agressões ao "impasse da questão fundiária em Mato Grosso do Sul, que dura décadas, e à necessidade de uma solução efetiva por parte do Governo Federal."
José Armando Cerqueira Amado, irmão de Silvana, explicou ao EL PAÍS que ela mora em Campo Grande e foi avisada pelos funcionários da fazenda que os índios haviam entrado na área. Na segunda-feira ela foi, então, a Caarapó, onde registrou um Boletim de Ocorrência na delegacia e encontrou produtores rurais, para os quais afirmou que iria na propriedade no dia seguinte.
Na manhã de terça, ela chegou ao local acompanhada do marido e de um grupo de fazendeiros da cidade, segundo Amado. "Os índios estavam lá e houve discussão. Os produtores rurais soltaram rojões e os índios fugiram para a aldeia, que faz divisa com a fazenda", afirma ele. "Os indígenas foram atingidos na área da aldeia e não na área da minha irmã. O que aconteceu lá dentro [da aldeia] a gente não sabe. O que sabemos é que não havia nenhum produtor rural armado, nem com arma de bala de borracha. Eles estavam apenas com fogos de artifício", completou ele, que disse que Silvana estava "muito abalada" para dar entrevistas.

Processo de demarcação

A fazenda Yvu faz parte de uma área de 55.590 hectares que está em processo de demarcação pelo Governo federal. No último dia 12 de maio, dia em que a presidenta Dilma Rousseff foi afastada da Presidência, o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), João Pedro Gonçalves da Costa,  assinou o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Dourados Amambaipeguá I, que inclui diversas fazendas dos municípios de Caarapó, Amambai e Laguna Carapã. O relatório é a segunda etapa do processo de criação de uma terra indígena, que depois tem que ser demarcada pelo Ministério da Justiça e homologada pela Presidência. O processo de identificação desta terra começou a ser feito depois de um Compromisso de Ajustamento de Conduta assinado entre a Funai e o Ministério Público Federal em 2007.
O relatório apresenta as conclusões dos estudos de identificação feitos por antropólogos. Segundo o documento, publicado em 13 de maio no Diário Oficial, os guarani-kaiowá que viviam na área começaram a ser expulsos em 1882 para dar lugar ao cultivo de erva mate. No início do século XX esse processo de expulsão foi intensificado, quando o Governo brasileiro começou a vender as terras para a criação de fazendas. Os indígenas das duas etnias foram colocados em oito pequenas reservas, criadas ao longo de todo o Estado, onde tiveram dificuldades para manter seu modo de vida, baseado no cultivo. Com o passar dos anos, a população indígena nessas áreas foi crescendo e os locais começaram a ficar ainda menores para a quantidade de gente. Foi quando os índios começaram a reivindicar suas terras tradicionais.
O problema é que muitos desses locais foram vendidos a proprietários rurais que possuem a titularidade das terras, criando um impasse. Quando identificada como Terra Indígena pelos estudos, o Governo federal tem que desapropriar a área. Mas ele só pode indenizar os fazendeiros pelas benfeitorias feitas na terra, como imóveis e plantações, por exemplo. O valor da terra propriamente dita não pode entrar na conta porque reconheceu-se que ela era dos índios antes de ser dos fazendeiros e, portanto, não pode ser comprada pelo Governo. E os fazendeiros não aceitam isso."Não podemos corrigir um erro histórico cometendo outro erro histórico. Como se pode tirar a terra de alguém que tem posse?", questiona o fazendeiro José Amando Cerqueira, que afirma que seu pai comprou a fazenda Yvu em 1962.
O impasse gera os conflitos. De um lado, índios cansados de esperar por uma decisão e muitas vezes vivendo em situação precária, decidem retomar as terras, algumas já com o processo de demarcação adiantado. De outro, produtores rurais não aceitam perder as terras sem receberem o valor completo da indenização. Nos últimos tempos, sem nenhuma solução no horizonte, o Mato Grosso do Sul tornou-se palco de muitas mortes. No final de agosto de 2015, o indígena Semião Fernandes Vilhalva, de 24 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça em uma área de retomada no município de Antonio João depois de fazendeiros intimidarem os índios. Em 2013, a liderança indígena Ambrósio Vilhalva, de 52 anos, também foi assassinada a facadas, em uma área de retomada perto de Dourados. Em 2011, o cacique Nísio Gomes, de 59 anos, foi cercado por homens armados e morto a tiros, também depois de entrar em uma área em litígio.  
Os índios afirmam que não vão retroceder. "O nosso futuro depende do nosso território, da nossa terra. A gente pretende fazer cada vez mais retomadas porque estamos cansados da demora do Governo brasileiro em demarcar nossa terra. Tomamos uma posição e decidimos que essa é a nossa única saída", diz Gomes, a liderança da área onde está a Yvu. Segundo ele, depois do ataque na fazenda, na terça, os indígenas entraram em outras duas áreas em litígio. 

Crime é denunciado no exterior

O ataque sofrido por índios guarani-kaiowá nesta terça-feira foi denunciado na Noruega, onde ocorre o Oslo Redd Exchange 2016, um evento sobre desmatamento que reúne 35 países. "Hoje é um dia de solidariedade ao líder Cloudione, que foi assassinado. Qualquer iniciativa como o REDD+ deve ter como ponto de partida o reconhecimento dos direitos humanos dos povos indígenas", afirmou no evento Joênia Wapixana, primeira advogada indígena brasileira.
A Survival International, ONG que defende os direitos indígenas no mundo, também afirmou, em nota, que o ataque possivelmente faz parte da "escalada da tentativas por parte de poderosos interesses do agronegócio e da agropecuária, estreitamente vinculados ao Governo interino [de Michel Temer], para expulsar ilegalmente os guarani de sua terra ancestral e intimidá-los com atitudes racistas e violência genocida."
O Instituto Socioambiental (ISA), organização brasileira que luta pela questão ambiental, fez um editorial em que também culpa fazendeiros e pistoleiros pelo ataque. "Trata-se de mais um assassinato praticado por milícias privadas no Mato Grosso do Sul, onde ocorre um dos maiores índices de concentração fundiária do Brasil, que, por sua vez, é o país com a segunda maior taxa de concentração fundiária em todo o mundo, superada apenas pela da África do Sul."
O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) chamou de "massacre" o ataque desta terça-feira e categorizou como "paramiltar" a ação. Ressaltou também que foram registrados ao menos vinte e cinco casos similares no Estado.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

São José de Sangradouro

No ano de 1957, chegaram os Xavantes, dando uma grande reformulação para toda a Missão, na educação, no internato, na catequese, nos trabalhos agrícolas, culturais e religiosos. Nesta época começou o internato só para indígenas Bororo e Xavante.
No ano de 1972, realizou-se a construção da usina de energia elétrica, o correio aéreo e a demarcação das terras, com uma extensão de 180.000 hectares, a qual tanto benefício trouxe aos indígenas, evitando grandes problemas no futuro.
O fechamento do internato para os meninos, em 1976 e, para as meninas, em 1977, foi uma grande transformação educacional e cultural para a Missão.
Depois de muito refletir, estudar e não com certa preocupação, a direção da escola foi entregue para os Xavantes no ano de 2006. Foi um passo que mais cedo ou mais tarde teria que ser dado. Se a nossa finalidade é orientar os povos indígenas, chegando a certa idade, eles têm que assumir o compromisso e a responsabilidade das próprias necessidades históricas.